Dossiê — Trem-bala / TAV Rio–São Paulo–Campinas: custos, leilões, apoio público e novo projeto privado

Capa investigativa em preto e vermelho sobre o Trem-bala e TAV Rio–São Paulo–Campinas, com trem de alta velocidade, mapa do corredor, custos estimados, leilão vazio de 2011 e distinção do projeto privado de 2023.

DOSSIÊ HISTÓRICO · PUBLICADO

Trem-bala / TAV Rio–São Paulo–Campinas: custos, leilões, apoio público e novo projeto privado

O projeto federal de Trem de Alta Velocidade pretendia ligar Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas em uma ferrovia de aproximadamente 511 km. Depois de estudos, dois modelos de concessão e sucessivos adiamentos, a obra não foi contratada. Em 2023 surgiu outro projeto, sob autorização privada, entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Critério editorial: custo estimado de uma obra, financiamento autorizado, garantia legal, dotação orçamentária e gasto efetivamente realizado são grandezas diferentes. Este dossiê também separa o projeto federal antigo do novo projeto privado autorizado em 2023. A pesquisa foi atualizada até 13 de outubro de 2026.

Linha do tempo essencial

  • 2007–2009 — estudos. O BNDES ficou responsável por contratar estudos técnicos para a modelagem do TAV. O Consórcio Halcrow–Sinergia elaborou estudos de viabilidade; o Serviço Geológico do Brasil produziu estudos geológico-geotécnicos concluídos em 2009.
  • 2010 — primeiro edital. O projeto federal foi estruturado como concessão do corredor Rio–São Paulo–Campinas, com investimento estimado inicialmente em R$ 34,6 bilhões e depois ajustado pelo TCU para cerca de R$ 33,1 bilhões.
  • 2011 — primeiro leilão vazio. Nenhum proponente apresentou proposta válida no leilão do Edital 001/2010. A ANTT homologou o resultado como leilão vazio e determinou nova modelagem.
  • 2011 — criação da ETAV. A Lei 12.404 autorizou a criação da Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade e criou mecanismos federais de garantia e subvenção ligados ao financiamento do projeto.
  • 2012 — ETAV vira EPL. A Lei 12.743 transformou a ETAV em Empresa de Planejamento e Logística e ampliou suas funções para além do trem de alta velocidade.
  • 2012–2013 — segundo modelo. O governo separou operação/tecnologia da construção da infraestrutura. A EPL teria participação de 45% na SPE do serviço, segundo a modelagem divulgada pelo Ministério dos Transportes.
  • Agosto de 2013 — novo adiamento. A primeira etapa do segundo leilão foi adiada. O governo mantinha, naquele momento, previsão de operação em 2020.
  • 2014–2015 — projeto perde prioridade. Auditoria posterior da CGU sobre a EPL registrou a retirada do TAV do Programa de Investimentos em Logística e a extinção da gerência específica de projetos de TAV.
  • 2022 — fim da EPL como empresa independente. A EPL foi incorporada pela Valec, operação que deu origem à atual Infra S.A.
  • 2023 — novo projeto privado. A ANTT autorizou a empresa TAV Brasil a construir e explorar, por 99 anos, uma ferrovia de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro, com aproximadamente 378 km.
  • 2026 — ainda em fase de projeto/licenciamento. Informações públicas da empresa e da imprensa especializada indicavam revisão de cronograma, com projeto básico e EIA-RIMA previstos para 2027; não havia obra ferroviária em operação.

Quanto custaria o projeto federal

O TCU registrou que o investimento total havia sido inicialmente estimado em R$ 34,6 bilhões. Depois das análises do Tribunal, ANTT e BNDES, a estimativa usada no processo de concessão foi ajustada para aproximadamente R$ 33,13 bilhões.

ComponenteEstimativa do TCU
Obras civisR$ 22,927 bilhões
Desapropriações e medidas socioambientaisR$ 3,894 bilhões
Sistemas e equipamentosR$ 3,697 bilhões
Material rodante e outrosR$ 2,611 bilhões
TotalR$ 33,130 bilhões

Em divulgações posteriores do segundo modelo, o Ministério dos Transportes passou a usar referência de R$ 35,6 bilhões, a preços de 2008. A diferença entre os números decorre de versões, escopo e modelagem; não representa por si só valor já gasto.

Fonte: TCU — fiscalização da concessão do TAV

Fonte: Ministério dos Transportes — projeto TAV e estimativa de R$ 35,6 bilhões

R$ 20 bilhões de BNDES e R$ 5 bilhões de subvenção: autorização não é desembolso

A Lei 12.404/2011 autorizou a União a garantir financiamento de até R$ 20 bilhões entre o BNDES e a futura concessionária do TAV. O texto também autorizou subvenção econômica de até R$ 5 bilhões ao BNDES, por equalização de juros, condicionada a frustração de receita durante a operação.

Esses dispositivos criaram uma exposição pública potencial importante, mas dependiam da existência de uma concessionária, de contrato, de financiamento e, no caso da subvenção, de operação do sistema e receita abaixo das projeções.

Como o primeiro leilão ficou vazio e o segundo modelo não chegou à contratação final da concessão, esses tetos legais não podem ser apresentados como “R$ 25 bilhões gastos no trem-bala”.

No processo de 2010, o TCU chegou a determinar que o teto de financiamento público do edital fosse ajustado para aproximadamente R$ 19,98 bilhões, equivalente a no máximo 60,3% do investimento então estimado.

Fonte: Lei 12.404/2011 — garantia e subvenção vinculadas ao TAV

Fonte: TCU — teto e participação máxima do financiamento público

O primeiro leilão ficou vazio

O Edital 001/2010 previa uma concessão que reunia construção, operação, manutenção e conservação da ferrovia de alta velocidade. Depois de adiamentos, o certame foi realizado sem propostas válidas.

Em outubro de 2011, a ANTT homologou oficialmente o resultado: nenhum proponente entregou proposta conforme as exigências do edital. A diretoria considerou o leilão vazio e determinou a elaboração de nova proposta de implantação.

Esse é um marco importante porque mostra que o fracasso da primeira tentativa não ocorreu depois de a União construir a ferrovia; ocorreu ainda na fase de estruturação e contratação.

Fonte: ANTT — homologação do leilão vazio de 2011

ETAV, EPL e o segundo modelo

A Lei 12.404 autorizou a criação da ETAV, empresa pública dedicada ao desenvolvimento do trem de alta velocidade. Em 2012, a Lei 12.743 mudou seu nome para Empresa de Planejamento e Logística — EPL e ampliou suas competências para estudos e planejamento de transportes em geral.

No segundo modelo do TAV, divulgado em 2012–2013, a licitação foi dividida. Primeiro seria escolhido o operador e fornecedor de tecnologia; depois seria contratada a infraestrutura. Segundo o Ministério dos Transportes, a EPL teria 45% da SPE associada à concessão do TAV.

A mudança é relevante porque a EPL não permaneceu uma estatal dedicada exclusivamente ao trem-bala. Mesmo depois de o projeto perder prioridade, a empresa continuou executando outras funções de planejamento logístico. Em 2022, foi incorporada pela Valec e suas funções passaram à Infra S.A.

Fonte: Lei 12.743/2012 — ETAV passa a ser EPL

Fonte: Ministério dos Transportes — funções da EPL no TAV

Fonte: Decreto 11.081/2022 — incorporação da EPL pela Valec

Quanto foi realmente gasto antes de a obra sair da pauta

Este é o ponto em que as manchetes históricas mais confundem orçamento previsto, valor de licitação, financiamento autorizado e despesa efetivamente registrada.

  • Documentação legislativa do Senado registra contratação, via BNDES, de estudos de viabilidade por aproximadamente R$ 28,9 milhões.
  • O Relatório de Gestão da ANTT de 2018 registra contabilmente R$ 6,678 milhões em “estudos e projetos em elaboração — TAV” que foram baixados do patrimônio da agência quando o projeto foi transferido para a EPL. Esse valor é um registro patrimonial específico da ANTT e não deve ser somado automaticamente aos R$ 28,9 milhões sem verificar eventual sobreposição entre os estudos.
  • Houve ainda estudos geológico-geotécnicos do Serviço Geológico do Brasil e atividades técnicas de ANTT, BNDES e EPL. A pesquisa não localizou uma demonstração pública consolidada que permita atribuir todo o custo administrativo dessas instituições exclusivamente ao TAV.
  • Em 2014, relatório oficial da EPL registrou atividades de aprimoramento de base de dados executadas com suporte do próprio corpo técnico e sem dispêndio de contratações externas naquele conjunto de trabalhos.
  • Em agosto de 2013, o Ministério dos Transportes informou que o projeto executivo tinha limite orçamentário de R$ 267 milhões para 2014. Dotação ou limite de orçamento não significa pagamento realizado.
  • O mesmo comunicado citava custo estimado de R$ 60 milhões a R$ 70 milhões para a licitação da gerenciadora do projeto executivo, mas o RDC Presencial 003/2013 foi posteriormente revogado. Portanto, essa estimativa não pode ser apresentada como valor pago por esse contrato.

Desapropriações: o modelo antigo reservava até R$ 3,4 bilhões de capital público para desapropriações e licenciamento, e a EPL tinha competência legal para promover desapropriações. Porém, os documentos de 2013–2014 encontrados descrevem planejamento, bases, sistemas de avaliação e contratação futura de apoio ao programa de desapropriação. Não foi localizada, até a data de corte, evidência primária de que o projeto federal tenha chegado a uma campanha material de aquisição de imóveis compatível com os bilhões estimados antes de ser paralisado.

A apuração, portanto, não sustenta a narrativa simplificada de que R$ 33 bilhões, R$ 25 bilhões ou R$ 1 bilhão tenham sido desembolsados na construção de uma ferrovia inexistente. Os R$ 33–35,6 bilhões eram estimativas de investimento; os R$ 20 bilhões e R$ 5 bilhões eram tetos legais condicionais; e os valores de projeto executivo eram limites ou estimativas de contratação.

Limite documental: há gastos preparatórios comprovados, mas não foi localizada uma conta única, auditada e sem sobreposições que consolide todos os pagamentos federais diretamente atribuíveis ao TAV entre 2007 e 2015. O dossiê preserva essa limitação em vez de fabricar uma soma a partir de números de naturezas distintas.

Fonte: Senado — estudos e estrutura pública prevista

Fonte: ANTT — Relatório de Gestão 2018 e registro patrimonial de R$ 6,678 milhões

Fonte: Relatório de Administração da EPL — atividades do TAV em 2014

Fonte: Ministério dos Transportes — orçamento do projeto executivo

Fonte: EPL — RDC 003/2013 revogado

2013: novo adiamento e um cronograma que não se confirmou

O novo edital foi lançado em dezembro de 2012. Em 2013, o governo alterou condições para aumentar a atratividade do projeto e chegou a reduzir a outorga mínima esperada.

Em agosto daquele ano, a primeira etapa foi adiada novamente. O Ministério dos Transportes afirmou que o projeto continuaria e manteve a previsão de operação em 2020. Essa previsão não se concretizou.

Auditoria da CGU sobre a EPL registrou depois a retirada do TAV do Programa de Investimentos em Logística e a extinção da gerência específica do projeto. A partir daí, o TAV federal deixou de avançar como obra contratada.

Fonte: Ministério dos Transportes — edital de 2012

Fonte: Ministério dos Transportes — adiamento de 2013 e previsão de 2020

Fonte: CGU/EPL — auditoria e retirada do projeto da estrutura específica da EPL

O TAV de 2023 é outro projeto

Em março de 2023, a ANTT assinou o Contrato de Adesão nº 7/2023 com a empresa privada TAV Brasil. A autorização cobre uma ferrovia entre São Paulo e Rio de Janeiro, com aproximadamente 378 km e prazo de 99 anos.

Há duas diferenças essenciais em relação ao projeto federal anterior:

  • o traçado autorizado de 2023 não é o antigo corredor federal de 511 km até Campinas;
  • a outorga foi feita pelo regime privado de autorização ferroviária criado pela Lei 14.273/2021, e não pelo antigo modelo de concessão com grande linha de financiamento público previamente estruturada.

A Lei das Ferrovias estabelece que a autorizatária é responsável pelos investimentos necessários por sua conta e risco. A autorização não equivale a garantia de financiamento, nem significa que o governo tenha decidido pagar a construção.

Fonte: ANTT — extrato do Contrato de Adesão nº 7/2023

Fonte: Lei 14.273/2021 — autorização ferroviária por conta e risco da autorizatária

Situação do novo projeto em outubro de 2026

A autorização de 2023 continua aparecendo na base oficial da ANTT entre as ferrovias outorgadas por autorização. O cadastro identifica a TAV Brasil, a EF-365, o trecho São Paulo–Rio de Janeiro, extensão de 378 km e o Contrato de Adesão nº 7/2023.

Isso confirma a existência e a vigência cadastral do projeto, mas não significa obra concluída, financiamento fechado ou operação iniciada. A própria ANTT esclarece que, no regime de autorização, cabe à empresa desenvolver engenharia, licenciamento, financiamento e implantação, assumindo os riscos do empreendimento.

Em setembro de 2026, divulgação setorial baseada em apresentação da empresa indicava revisão do cronograma, com projeto básico e EIA-RIMA esperados para 2027. Como esse cronograma é informação empresarial e não marco regulatório garantido, o dossiê o apresenta como previsão, não como compromisso público de entrega.

Na pesquisa realizada até 13/10/2026, não foi localizada decisão da ANTT revogando o Contrato de Adesão nº 7/2023. Portanto, a situação documental adotada é: autorização vigente/listada pela ANTT, empreendimento ainda em desenvolvimento e sem operação ferroviária.

Fonte: ANTT — dados das ferrovias outorgadas por autorização

Fonte: ANTT — responsabilidades da autorizatária e riscos privados

Fonte complementar: Revista Ferroviária — cronograma empresarial divulgado em setembro de 2026

Síntese documental

  • O projeto federal foi real e avançou bastante na modelagem. Houve estudos, dois modelos de concessão, legislação específica, empresa pública e estrutura financeira própria.
  • A ferrovia federal não foi construída. O primeiro leilão ficou vazio; o segundo modelo foi adiado e depois perdeu prioridade antes de haver contrato de construção da linha.
  • A exposição pública potencial era elevada. A legislação autorizava garantia de até R$ 20 bilhões em financiamento, subvenção de até R$ 5 bilhões em condições específicas e participação pública ligada também a desapropriações.
  • Esses tetos não equivalem a gasto realizado. Sem concessionária contratada e sem operação, não se pode afirmar que R$ 25 bilhões tenham sido desembolsados.
  • Houve gastos preparatórios comprovados. Estudos de viabilidade, estudos geológicos, trabalho técnico e estruturação institucional consumiram recursos; há, por exemplo, registro de R$ 28,9 milhões em estudos contratados via BNDES e R$ 6,678 milhões de estudos/projetos registrados pela ANTT, valores que não devem ser somados sem análise de sobreposição.
  • A grande previsão de desapropriações não se materializou documentalmente como desembolso bilionário. As fontes localizadas registram preparação e planejamento do programa antes da paralisação, sem evidência encontrada de campanha material de aquisição de imóveis na escala originalmente estimada.
  • A licitação da gerenciadora de 2013 foi revogada. O valor estimado de R$ 60–70 milhões não pode ser tratado como contrato pago.
  • O projeto privado de 2023 é juridicamente diferente. A autorização São Paulo–Rio possui 378 km, prazo de 99 anos e investimento a cargo da autorizatária por sua conta e risco; em outubro de 2026 ela continuava listada pela ANTT.

Notas de verificação

Data de corte: 13/10/2026. A pesquisa separa o antigo projeto federal do novo empreendimento privado e mantém distintas as categorias de custo estimado, garantia, financiamento, orçamento, contratação e pagamento efetivo.

  • Leilões: o primeiro certame de 2011 foi confirmado como vazio; o segundo modelo foi reconstruído até o adiamento e a perda de prioridade.
  • Apoio público potencial: garantia federal de até R$ 20 bilhões e subvenção potencial de até R$ 5 bilhões são apresentadas como autorizações condicionais, não como desembolsos realizados.
  • Gastos preparatórios: os valores conhecidos foram separados dos orçamentos e mantidos sem soma automática quando existe possibilidade de sobreposição.
  • Gerenciadora de 2013: o RDC 003/2013 foi identificado como revogado; a estimativa de R$ 60–70 milhões não é tratada como pagamento.
  • Desapropriações: há documentação de planejamento, mas não foi localizada evidência de desembolso material na escala bilionária originalmente prevista antes da paralisação.
  • TAV privado: a autorização de 2023 foi confirmada na base da ANTT em outubro de 2026, sem revogação localizada e sem confusão com o projeto federal antigo.

Status editorial: dossiê publicado. Se surgirem documentos posteriores que alterem algum ponto material, a página deverá registrar a atualização de forma explícita.